Leitura: Economia brasileira cresce 0,7% em maio e inflação recua: o que muda no bolso do consumidor

Economia brasileira cresce 0,7% em maio e inflação recua: o que muda no bolso do consumidor

Diego Rodríguez Velázquez
Por Diego Rodríguez Velázquez 8 Min de leitura
Economia brasileira cresce 0,7% em maio e inflação recua: o que muda no bolso do consumidor

Dados da FGV, do Banco Central e do boletim Focus mostram atividade em alta e projeção de juros menores até o fim de 2026.

Depois de meses de instabilidade nos indicadores, a economia brasileira voltou a mostrar sinais de fôlego em maio. O Monitor do PIB, calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), apontou crescimento de 0,7% na passagem de abril para maio, resultado puxado principalmente pelo consumo das famílias. No mesmo período, o boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, trouxe uma notícia que interessa direto ao bolso do brasileiro: a expectativa do mercado financeiro para a inflação em 2026 caiu pela terceira semana seguida, agora projetada em 5,15%. A pergunta que fica é simples e prática: esses números significam vida mais barata e crédito mais acessível nos próximos meses, ou o otimismo dos indicadores ainda demora para chegar ao dia a dia de quem faz compras no mercado ou tenta fechar as contas no fim do mês?

Consumo das famílias sustenta a retomada do PIB

O levantamento da FGV, divulgado nesta segunda-feira (20), mostrou que a economia brasileira cresceu 1,9% no trimestre móvel encerrado em maio, na comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo a Agência Brasil, o PIB acumulado até maio, em valores correntes, já soma R$ 5,466 trilhões. O resultado interrompeu uma sequência mais fraca: em abril houve recuo, e em março a atividade ficou estável, o que reforça a leitura de que maio trouxe uma reação pontual puxada pelo consumo. De acordo com a FGV, o gasto das famílias avançou 3,3% no trimestre até maio, o maior patamar desde o último trimestre de 2024. Esse dado importa porque o consumo responde por parcela relevante do PIB brasileiro, então quando as famílias voltam a gastar mais, isso tende a se espalhar por outros setores, como comércio e serviços.

Ainda assim, vale prestar atenção a um detalhe que o próprio estudo da FGV destaca: o indicador acumulado em 12 meses, que funciona como um retrovisor de prazo mais longo, mostra desaceleração, de 3% em março para 1,7% agora. Outro termômetro da atividade, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), apontou expansão mais modesta, de apenas 0,1% entre abril e maio. O resultado oficial do PIB, calculado trimestralmente pelo IBGE, apontou alta de 1,1% no primeiro trimestre de 2026, e a próxima divulgação, referente ao segundo trimestre, está marcada para 1º de setembro. Na prática, isso mostra que o crescimento existe, mas ainda é desigual entre os meses, o que deixa o mercado cauteloso sobre a força real da recuperação.

Inflação em queda abre espaço para juros menores

O boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (20) trouxe a terceira redução seguida na projeção de inflação para 2026. Segundo a Agência Brasil, o mercado agora espera que o IPCA feche o ano em 5,15%, ante 5,16% na semana anterior e 5,33% há quatro semanas. Para 2027 e 2028, as projeções caem ainda mais, para 4,20% e 3,78% respectivamente, o que indica que os economistas consultados pelo BC enxergam uma trajetória de acomodação mais consistente nos próximos anos. Esse movimento é relevante porque a inflação alta corrói o poder de compra do salário, então qualquer sinal de desaceleração tende a ser recebido como notícia positiva por quem sente no supermercado o peso dos reajustes de preços.

O outro lado dessa equação é a taxa Selic, hoje fixada em 14,25% pelo Comitê de Política Monetária (Copom), o maior nível desde 2006. Segundo o Focus, a projeção para a Selic ao fim de 2026 se manteve em 14% pela quarta semana seguida, o que sugere ao menos um corte até dezembro. A próxima reunião do Copom acontece nos dias 4 e 5 de agosto, e o mercado vai observar de perto qualquer sinalização sobre o ritmo dos cortes. Quando a Selic cai, o crédito tende a ficar mais barato, o que estimula financiamento, produção e consumo, mas existe também o risco contrário: especialistas ouvidos pelo Banco Central alertam que crédito mais barato pode, em algum momento, voltar a pressionar a própria inflação.

Dólar e bolsa refletem cenário externo mais instável

Enquanto os indicadores domésticos mostram melhora gradual, o câmbio segue reagindo principalmente a fatores externos. Em julho, segundo a Agência Brasil, o dólar chegou a fechar cotado a R$ 5,13, no menor nível em quase três semanas, beneficiado pela valorização de commodities exportadas pelo Brasil, como soja, minério de ferro e carne. Mesmo com a moeda americana perdendo força, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, recuou no mesmo período, descolando das bolsas americanas, que fecharam em alta puxadas por empresas de tecnologia e inteligência artificial. Esse descolamento mostra como o fluxo de capital estrangeiro tem preferido mercados desenvolvidos, o que reduz o apetite por ativos de países emergentes como o Brasil, mesmo quando os fundamentos internos melhoram.

Some-se a isso a proximidade das eleições de 2026 e a audiência nos Estados Unidos sobre a tarifa adicional de 25% aplicada a produtos brasileiros, dois fatores de incerteza que os investidores acompanham de perto. No mercado internacional, o petróleo também recuou, influenciado pela decisão da Opep+ de aumentar a produção a partir de agosto. Esses elementos, somados, ajudam a explicar por que, mesmo com dados domésticos mais favoráveis, o humor dos mercados financeiros segue sensível a qualquer notícia vinda de fora.

No fim das contas, os números de julho mostram uma economia que volta a crescer, com inflação em trajetória de queda e espaço para juros mais baixos ainda este ano, mas sem um cenário de certezas. O consumidor já sente algum alívio, especialmente porque o crédito deve ficar mais acessível se o Copom confirmar o corte esperado pelo mercado em agosto. Ao mesmo tempo, o câmbio e a bolsa seguem reféns de decisões que fogem do controle do governo brasileiro, da política americana às negociações comerciais internacionais. Para quem organiza o orçamento doméstico ou pensa em investir, o recado prático é acompanhar a divulgação do IPCA de junho e o resultado da reunião do Copom em agosto.

Compartilhe esse artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *