Para o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, uma das mudanças mais significativas observadas atualmente está relacionada à forma como a população encara o envelhecimento. Diferentemente do que acontecia há algumas décadas, chegar aos 60 anos já não representa necessariamente uma fase de desaceleração ou afastamento da vida social. Pelo contrário, muitas pessoas alcançam essa etapa da vida com planos, projetos e expectativas que antes eram mais comuns entre adultos mais jovens.
Esse movimento acompanha transformações importantes da sociedade. O aumento da expectativa de vida, os avanços da medicina, a ampliação do acesso à informação e a valorização crescente da qualidade de vida contribuíram para mudar a maneira como o envelhecimento é percebido. Como resultado, a terceira idade passou a ser associada não apenas aos desafios naturais do passar do tempo, mas também a novas oportunidades de participação, aprendizado e desenvolvimento pessoal.
Ao mesmo tempo, essa mudança levanta uma questão relevante: será que a geração que está chegando aos 60 anos envelhecerá da mesma forma que seus pais e avós? Embora existam aspectos que continuam fazendo parte do processo de envelhecimento, diversos fatores indicam que a experiência de envelhecer está se transformando de maneira profunda. Interessado em saber mais sobre? Confira, a seguir.
Por que a visão sobre a terceira idade está mudando?
Durante muito tempo, o envelhecimento foi associado principalmente à perda de capacidades e à redução da participação social. Em muitos contextos, a aposentadoria marcava o início de uma fase mais reservada da vida, com menos envolvimento em atividades profissionais, culturais e comunitárias. Essa percepção foi construída ao longo de gerações e influenciou a forma como a sociedade passou a enxergar as pessoas idosas.
Entretanto, a realidade atual mostra um cenário diferente. A geração que hoje se aproxima dos 60 anos cresceu acompanhando mudanças econômicas, tecnológicas e comportamentais que ampliaram suas possibilidades de atuação. Segundo Yuri Silva Portela, observa-se um interesse crescente em preservar a autonomia, manter vínculos sociais e continuar participando ativamente das decisões que envolvem a própria vida, o que contribui para redefinir o significado do envelhecimento na contemporaneidade.
Como os hábitos de vida estão influenciando essa transformação?
Uma das diferenças mais evidentes entre a geração atual e as anteriores está na relação com os cuidados preventivos. Nas últimas décadas, temas relacionados à saúde passaram a ocupar espaço cada vez maior nos meios de comunicação, nas instituições de ensino e nas campanhas de conscientização. Como consequência, muitas pessoas passaram a compreender mais cedo a importância de hábitos capazes de influenciar diretamente a qualidade de vida durante o envelhecimento.

Além disso, fatores como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, acompanhamento médico e atenção à saúde mental passaram a ser vistos como investimentos de longo prazo. De acordo com o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, existe uma compreensão cada vez maior de que o envelhecimento saudável não começa aos 60 anos, mas sim nas escolhas realizadas ao longo de toda a vida, especialmente durante a fase adulta.
A tecnologia está criando uma terceira idade mais conectada?
Outro aspecto que diferencia essa geração é a convivência com recursos tecnológicos. Embora existam diferenças no grau de familiaridade com ferramentas digitais, uma parcela significativa das pessoas que estão chegando à terceira idade já utiliza smartphones, aplicativos de comunicação, plataformas de vídeo e serviços online como parte da rotina. Essa proximidade com a tecnologia representa uma mudança importante em comparação com gerações anteriores.
Ao mesmo tempo, os recursos digitais vêm ampliando o acesso à informação e aos serviços de saúde. Consultas por telemedicina, aplicativos de monitoramento e canais de orientação permitem que muitos idosos acompanhem aspectos importantes do próprio bem-estar com mais praticidade. Nesse contexto, Yuri Silva Portela ressalta que a tecnologia pode ser uma grande aliada da qualidade de vida, desde que utilizada de forma consciente e associada ao acompanhamento profissional adequado.
Quais desafios continuam preocupando especialistas em geriatria?
Apesar das mudanças positivas observadas nos últimos anos, o envelhecimento continua apresentando desafios que exigem atenção constante. O aumento da expectativa de vida traz benefícios importantes para a sociedade, mas também amplia a necessidade de lidar com doenças crônicas, questões relacionadas à saúde mental e situações que podem comprometer a autonomia ao longo do tempo. Por isso, viver mais não significa automaticamente viver melhor.
Além disso, o envelhecimento populacional acontece em um país marcado por diferenças sociais significativas. Enquanto algumas pessoas conseguem acessar serviços de saúde, informação e oportunidades de prevenção com relativa facilidade, outras enfrentam obstáculos que dificultam a construção de uma longevidade saudável. Nesse cenário, as iniciativas voltadas à inclusão e ao acesso ao cuidado tornam-se cada vez mais relevantes, especialmente em regiões que convivem com limitações estruturais.
O futuro da longevidade será construído pelas escolhas do presente
Tudo indica que a geração que está chegando aos 60 anos envelhecerá de forma diferente das anteriores. O acesso ao conhecimento, a valorização da prevenção, a presença da tecnologia no cotidiano e a busca por uma vida mais ativa estão criando condições para que mais pessoas preservem independência e qualidade de vida durante a terceira idade. Trata-se de uma mudança que já pode ser observada em diferentes aspectos do comportamento social.
No entanto, essa transformação depende de decisões tomadas muito antes do envelhecimento se tornar uma realidade concreta. Como destaca Yuri Silva Portela, construir uma longevidade saudável envolve hábitos consistentes, acompanhamento adequado e uma compreensão mais ampla sobre o próprio processo de envelhecer. À medida que a população vive mais, cresce também a importância de garantir que esses anos adicionais sejam acompanhados de autonomia, participação social e bem-estar.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez